Ronco e Apneia do Sono: do diagnóstico ao tratamento certo para o seu caso

Ronco não é só incômodo — é sinal de que sua via aérea está comprometida durante o sono. Entenda as opções de tratamento para apneia obstrutiva do sono: CPAP, aparelho intraoral, Mounjaro, cirurgia nasal e faríngea, suas indicações, limitações e quando cada uma é realmente necessária.

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O que é apneia obstrutiva do sono

A síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS) é definida pela ocorrência de episódios repetidos de obstrução parcial ou total da via aérea superior durante o sono, com duração de pelo menos 10 segundos. Cada episódio causa uma queda na saturação de oxigênio e, na maioria das vezes, um microdespertar — que o paciente raramente percebe, mas que fragmenta profundamente o sono.

O ronco é o sintoma mais visível: é o som gerado pela vibração dos tecidos moles da faringe (palato mole, úvula, base da língua) quando o fluxo de ar encontra resistência aumentada. Ronco habitual ocorre em cerca de 40% dos adultos acima de 40 anos — e em aproximadamente metade desses casos está associado a algum grau de apneia.

Dado importante: estima-se que mais de 32 milhões de brasileiros tenham algum grau de apneia do sono — e a maioria não sabe. A SAOS não tratada está associada a hipertensão arterial sistêmica, fibrilação atrial, infarto, AVC, diabetes tipo 2 e acidentes de trânsito.

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Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é feito pela polissonografia — o exame-padrão que monitora, durante o sono, o fluxo de ar, os movimentos respiratórios, a saturação de oxigênio, a frequência cardíaca e os estágios do sono. O resultado é expresso pelo índice de apneia-hipopneia (IAH):

ClassificaçãoIAH (eventos/hora)Impacto clínico típico
Leve5 – 15Sonolência leve, ronco, cansaço matinal
Moderada15 – 30Sonolência diurna, acordar com engasgo, cefaleia matinal
Grave> 30Risco cardiovascular elevado, déficit cognitivo, hipertensão refratária

Hoje, a polissonografia domiciliar (tipo 3 ou 4) é uma alternativa validada para diagnóstico em casos de probabilidade pré-teste elevada — mais acessível e igualmente confiável para a maioria dos pacientes.

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Visão geral das opções de tratamento

Não existe um tratamento único para ronco e apneia. A escolha depende da gravidade da apneia (IAH), da anatomia da via aérea, do índice de massa corporal, das comorbidades e da preferência do paciente. As principais opções são:

Tratamento 01
CPAP

Pressão positiva contínua nas vias aéreas. Padrão-ouro para apneia moderada a grave.

Alta eficácia
Tratamento 02
Aparelho Intraoral

Dispositivo de avanço mandibular. Boa opção para apneia leve a moderada e ronco isolado.

Boa tolerância
Tratamento 03
Cirurgia Nasal

Septoplastia, turbinectomia. Melhora o fluxo nasal e a tolerância ao CPAP.

Adjuvante
Tratamento 04
Cirurgia Faríngea

Palatoplastia, uvuloplastia, cirurgia de base de língua. Indicação seletiva.

Seleção criteriosa
Tratamento 05
Mounjaro / GLP-1

Agonistas de GIP/GLP-1. Redução de peso com impacto direto no IAH em pacientes obesos.

Evidência crescente
Tratamento 06
Medidas comportamentais

Perda de peso, posicionamento, higiene do sono. Base de qualquer tratamento.

Sempre indicado
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CPAP: padrão-ouro e suas limitações reais

O CPAP (Continuous Positive Airway Pressure) é o tratamento de primeira linha para apneia moderada a grave. Funciona como uma "tala pneumática" para a via aérea: a pressão positiva mantém a faringe aberta durante todo o sono, eliminando virtualmente todos os eventos de apneia quando usado corretamente.

Eficácia: quando tolerado, o CPAP reduz o IAH para menos de 5 eventos/hora em praticamente todos os pacientes, independentemente da gravidade inicial. É o único tratamento com evidência robusta de redução de risco cardiovascular em SAOS grave.

Por que tanta gente abandona o CPAP

A principal limitação do CPAP não é a eficácia — é a adesão. Estudos mostram que 30 a 50% dos pacientes abandonam o dispositivo nos primeiros 12 meses. Os motivos mais frequentes são:

  • Desconforto da máscara (claustrofobia, escape de ar, lesões na pele)
  • Boca seca e ressecamento nasal (agravado por obstrução nasal subjacente)
  • Dificuldade de adormecer com o dispositivo
  • Ruído do aparelho incomodando o parceiro
  • Restrição de mobilidade durante o sono

Conexão com cirurgia nasal: a obstrução nasal é uma das principais causas de intolerância ao CPAP. Pacientes com desvio de septo ou hipertrofia de cornetos frequentemente não conseguem usar o CPAP porque a resistência nasal elevada torna a pressão insuportável. A correção cirúrgica nasal, nesse contexto, não trata a apneia diretamente — mas viabiliza o uso do CPAP.

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Aparelho intraoral: a alternativa subestimada

O dispositivo de avanço mandibular (DAM) é uma placa personalizada que posiciona a mandíbula levemente à frente durante o sono, aumentando o espaço retrofaríngeo e reduzindo a colapsibilidade da via aérea.

As principais indicações são:

  • Ronco primário (sem apneia associada)
  • SAOS leve a moderada (IAH 5–30)
  • SAOS grave com intolerância documentada ao CPAP
  • Paciente com anatomia favorável (retrognacia, base de língua aumentada)

Em comparação ao CPAP, o DAM tem menor eficácia absoluta na redução do IAH, mas adesão significativamente maior — o que, na prática clínica, pode resultar em melhor desfecho para pacientes que não toleram o CPAP.

O DAM deve ser confeccionado por dentista especializado em medicina do sono, com ajuste progressivo do avanço mandibular. Os efeitos colaterais mais comuns são desconforto dentário temporário e alterações na oclusão — geralmente reversíveis.

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Mounjaro, GLP-1 e a nova fronteira no tratamento da apneia

A obesidade é o principal fator de risco modificável para SAOS — estima-se que cada 10% de redução no peso corporal reduz o IAH em aproximadamente 26%. Nesse contexto, os novos agonistas de GIP/GLP-1 — em especial o tirzepatide (Mounjaro) e o semaglutide (Ozempic/Wegovy) — abriram uma nova fronteira no manejo da apneia associada à obesidade.

Um estudo publicado no New England Journal of Medicine em 2024 mostrou que o tirzepatide reduziu o IAH em aproximadamente 55% em pacientes com SAOS e obesidade, em comparação com placebo — um resultado que rivaliza com intervenções cirúrgicas em uma população selecionada.

Quando considerar essa abordagem

  • Paciente com SAOS e IMC ≥ 30 kg/m² (ou ≥ 27 com comorbidades)
  • Intolerância ao CPAP associada ao excesso de peso
  • Desejo de tratar a causa (obesidade) e não apenas o sintoma
  • Preparo pré-operatório em candidatos à cirurgia bariátrica ou cirurgia de via aérea

Importante: o Mounjaro e outros agonistas de GLP-1 não substituem o CPAP em apneia grave com risco cardiovascular elevado. Eles são adjuvantes ou opções para casos selecionados. A indicação deve ser feita em conjunto com endocrinologista e sempre dentro de um programa estruturado de manejo do peso.

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Cirurgia nasal na apneia: o que ela resolve e o que ela não resolve

A cirurgia nasal — septoplastia, turbinectomia e FESS — raramente cura a apneia do sono por si só. O nariz é responsável por resistência ao fluxo de ar, mas não é o sítio de colapso na maioria dos pacientes com SAOS — esse papel pertence à orofaringe (palato mole, base de língua).

Entretanto, a cirurgia nasal tem papel fundamental em dois cenários:

  1. Viabilização do CPAP: a obstrução nasal é a principal causa de intolerância ao CPAP. Corrigir o desvio de septo e reduzir os cornetos melhora significativamente o conforto e a adesão ao dispositivo — que segue sendo o tratamento principal.
  2. Apneia leve com componente nasal predominante: em pacientes com IAH leve (5–15) e obstrução nasal significativa, a cirurgia nasal isolada pode reduzir o IAH a níveis não-patológicos em casos selecionados.
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Cirurgia faríngea: palatoplastia, uvuloplastia e base de língua

A cirurgia de via aérea faríngea tem como objetivo reduzir ou tensionar os tecidos moles que colapsam durante o sono. As principais técnicas são:

Palatoplastia e uvuloplastia (UPPP e variantes)

A uvulopalatofaringoplastia (UPPP) envolve a ressecção de tecido do palato mole, úvula e faringe lateral, aumentando o espaço retropalatal. É a cirurgia faríngea para apneia mais realizada no mundo, com taxa de sucesso (redução do IAH ≥ 50%) em torno de 50–60% dos casos selecionados. Técnicas mais modernas como a palatoplastia por radiofrequência (RFITT) e a uvuloplastia a laser (LAUP) têm recuperação mais rápida e menos morbidade, mas indicação restrita a ronco primário ou apneia leve.

Cirurgia de base de língua

Em pacientes com colapso predominante ao nível da base da língua — identificado por nasofaringoscopia com manobra de Müller ou DISE (Drug-Induced Sleep Endoscopy) — procedimentos como a glossectomia por radiofrequência, o avanço genioglosso ou a estimulação do nervo hipoglosso (Inspire®) podem ser indicados.

O Inspire merece destaque: é um dispositivo implantável que estimula o nervo hipoglosso sincronizado com a respiração, avançando a língua durante a inspiração e mantendo a via aérea aberta. É indicado para SAOS moderada a grave com intolerância ao CPAP e anatomia favorável — com resultados expressivos em estudos de longo prazo.

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Limitações da cirurgia — o que todo paciente precisa saber

A cirurgia de via aérea para apneia do sono não é uma panaceia. Antes de tomar qualquer decisão, é fundamental entender suas limitações:

  • Nenhuma cirurgia garante cura da apneia: mesmo com indicação precisa, a apneia pode recorrer com o ganho de peso, o envelhecimento ou mudanças anatômicas
  • O sítio de colapso precisa ser identificado: operar o palato de quem tem colapso na base da língua não resolve — e vice-versa. A DISE (endoscopia durante sono induzido) é o exame mais preciso para mapear o sítio de obstrução
  • A gravidade importa: cirurgia faríngea isolada raramente é suficiente para SAOS grave (IAH > 30). Nesses casos, o CPAP continua sendo necessário no pós-operatório
  • Obesidade compromete os resultados: a cirurgia tem eficácia significativamente menor em pacientes com IMC > 35. O manejo do peso deve ser parte do plano de tratamento
  • Morbidade não é zero: dor, disfagia temporária e alterações vocais são efeitos esperados após palatoplastia. A decisão cirúrgica exige relação risco-benefício individualizada

Cada caso de apneia é único. Agende uma avaliação para entender qual tratamento faz sentido para a sua situação.

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Como escolher o tratamento certo para o seu caso

A escolha do tratamento para ronco e apneia do sono nunca deve ser baseada apenas na gravidade do IAH — ela precisa considerar a anatomia da via aérea, o peso corporal, as comorbidades, o impacto na qualidade de vida e, especialmente, a disposição real do paciente de aderir ao tratamento proposto.

Um tratamento com 100% de eficácia teórica que o paciente não consegue usar é menos eficaz do que uma opção com 70% de eficácia usada consistentemente todas as noites.

Dr. Henrique Ito Baldin realiza avaliação completa da via aérea superior — incluindo nasofibroscopia, análise do sítio de colapso e revisão da polissonografia — para oferecer uma recomendação personalizada que considera todas as opções disponíveis, cirúrgicas e não cirúrgicas.

O consultório fica na Bela Vista, São Paulo (Rua Maestro Cardim, 560 — cj 181), com atendimento particular. Agendamento direto pelo WhatsApp.

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