Amigdalite Crônica

Amígdalas inflamadas: quando a retirada de amígdalas é o melhor caminho

Amígdalas inflamadas: quando a retirada de amígdalas é o melhor caminho

Muitos pacientes chegam ao meu consultório exaustos. Cansados de gargantas inflamadas que vão e vêm, de noites mal dormidas pela dor e daquela sensação constante de que estão sempre à beira de uma nova crise. Quase todos já passaram pelo ciclo interminável de antibióticos e anti-inflamatórios que resolvem o problema hoje, mas deixam a garganta vulnerável de novo semanas depois. A frustração é imensa, especialmente quando as crises começam a atrapalhar as faltas na escola, o rendimento no trabalho ou a rotina de exercícios físicos. Quando as infecções se tornam frequentes a esse ponto, precisamos avaliar se as amígdalas deixaram de ser defensoras do corpo e passaram a ser as próprias vilãs. Nesses casos, a cirurgia de retirada pode ser o caminho ideal para recuperar a tranquilidade.

O papel das amígdalas e quando elas falham

As amígdalas — aquelas duas estruturas que você enxerga no fundo da garganta, uma de cada lado — funcionam como as sentinelas do nosso sistema de defesa. Elas ajudam a identificar e a combater os germes que entram pela boca, produzindo anticorpos fundamentais nos primeiros anos de vida. O problema é que, às vezes, essa barreira protetora começa a falhar. Quando as amígdalas sofrem agressões frequentes de vírus e bactérias, elas podem ficar cronicamente inflamadas e inchadas. Além disso, a superfície delas possui pequenas reentrâncias naturais chamadas criptas. Se as infecções forem constantes, essas criptas se tornam verdadeiros ninhos de bactérias e restos de alimentos. É assim que as amígdalas deixam de ser guardiãs e passam a atuar como um foco contínuo de infecção, prejudicando seu sono, sua alimentação e sua rotina diária.

Sinais de alerta: quando a inflamação vira um problem crônico

Os sinais de que a garganta inflamada virou um problema crônico são marcantes. O critério clínico mais comum que me faz cogitar a amigdalectomia — que é a cirurgia de remoção — é a recorrência das crises. Segundo as diretrizes internacionais da área [1], definimos as infecções de repetição por números bem estabelecidos: sete episódios de amigdalite no último ano, cinco episódios anuais nos últimos dois anos, ou três episódios por ano em três anos seguidos. Cada um desses episódios vem acompanhado de febre, dor intensa ao engolir, prostração e a necessidade de tomar antibióticos repetidamente. Outro sinal importante é o inchaço exagerado das amígdalas. Em alguns pacientes, elas aumentam tanto que bloqueiam a passagem do ar, provocando roncos e apneia do sono. Há também quem sofra de dor constante e mau hálito persistente provocado pelos cáseos amigdalianos — aquelas pequenas massas esbranquiçadas e com odor desagradável que se acumulam nas reentrâncias das amígdalas.

A decisão pela cirurgia: o que consideramos juntos

Indicar a remoção das amígdalas é uma decisão madura, tomada de forma conjunta em consulta. Analiso detalhadamente o histórico clínico e o impacto das crises na vida do paciente (ou na rotina da família, quando se trata de uma criança). Colocamos na balança a intensidade da dor de cada crise, a quantidade de aulas ou dias de trabalho perdidos e os riscos da exposição repetida a antibióticos. Se as tentativas de tratamento clínico e as mudanças de hábitos não funcionaram, e o prejuízo de manter o foco infeccioso é maior do que o procedimento cirúrgico em si, a indicação se confirma. O importante é que você entenda cada etapa do processo e se sinta totalmente confortável para darmos esse passo juntos, visando acabar com o ciclo de dor.

O procedimento de amigdalectomia: o que esperar

A amigdalectomia é um procedimento muito comum e previsível, realizado em ambiente hospitalar adequado sob anestesia geral, o que garante total conforto durante o processo. A cirurgia é rápida, durando entre 30 e 45 minutos, e a imensa maioria dos pacientes vai para casa no mesmo dia. Atualmente, além do método tradicional com instrumentos delicados (frios), podemos utilizar tecnologias modernas que facilitam a remoção e protegem os tecidos saudáveis ao redor. Uma delas é a técnica Coblation (coblação por radiofrequência) [2]. Diferente do eletrocautério elétrico convencional, que queima os tecidos a temperaturas elevadas, a coblação usa radiofrequência associada a uma solução salina para criar um campo de plasma. Esse plasma dissolve e remove as amígdalas de forma extremamente precisa em baixas temperaturas (entre 40°C e 70°C). O benefício prático para o paciente é enorme: há um dano térmico muito menor na garganta, resultando em menos desconforto no pós-operatório e um retorno mais rápido à alimentação normal. Após a cirurgia, prescrevo um protocolo de analgésicos rigoroso para controlar qualquer incômodo na garganta, permitindo que a cicatrização ocorra com tranquilidade.

Referências

  1. Clinical Practice Guideline: Tonsillectomy in Children (Update). Mitchell RB, Archer SM, Ishman SL, et al.. Otolaryngology—Head and Neck Surgery. PMID: 30798778
  2. Tonsillectomy Outcomes for Coblation Versus Bipolar Diathermy Techniques in Adult Patients: A Systematic Review and Meta-Analysis. Alsaif A, Alazemi M, Kahlar N, et al.. Ear Nose Throat Journal. PMID: 33719616

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