Você sabia que existem eventos de apneia do sono diferentes da obstrutiva?
Muita gente chega ao consultório convencida de que tem apneia obstrutiva (AOS) e já pensa em cirurgia de via aérea. O paciente conta que acorda cansado. O parceiro descreve pausas no sono. O descanso parece nunca ser suficiente. Depois da investigação, o traçado mostra outra coisa: não há colapso da garganta. O problema é o comando da respiração. Isso se chama apneia central — e muda o caminho inteiro.
Central vs obstrutiva
Na AOS, o cérebro manda respirar, mas a via aérea superior colapsa. O peito ainda tenta expandir. Muitas vezes aparece ronco alto. O parceiro pode notar engasgos. É como tentar puxar ar por um canudo dobrado.
Na apneia central, as vias em geral estão abertas. O que falta é o sinal do tronco cerebral para o diafragma e o tórax. Nesses segundos não há esforço respiratório, e o ronco costuma ser discreto ou nem existir. A analogia que eu uso: a orquestra está pronta, mas o maestro fica em silêncio por um instante.
É bem menos comum. Em coorte comunitária de adultos a partir de 40 anos, a prevalência ficou em torno de 0,9% [1]. Às vezes os dois tipos aparecem no mesmo sono — a gente chama de mista. Em outros casos, eventos centrais só surgem depois que a pessoa começa o CPAP para tratar AOS; isso é a apneia complexa. Por isso eu não fecho o caso pela história: preciso da polissonografia.
Causas
Quase sempre há um gatilho que altera o controle respiratório ou o equilíbrio entre oxigênio e gás carbônico.
Quando o coração não bombeia bem, esse controle se desorganiza; melhorar o tratamento cardíaco muitas vezes reduz as pausas. Um AVC ou outra lesão no tronco cerebral pode interromper o “maestro”. Opioides e outros remédios que deprimem a respiração também entram na conversa — e revisar a dose com quem prescreveu já resolve em parte dos casos. Tem ainda a apneia complexa, quando o controle após o CPAP mostra eventos centrais que não estavam no primeiro laudo. E tem a forma idiopática, sem causa clara depois da investigação; aí o trabalho passa a ser estabilizar a respiração no sono.
Cada uma dessas origens já indica com quem eu caminho junto e o que faz sentido tratar primeiro.
Como eu descubro
Os sintomas se parecem com os da AOS. O sono fragmenta. A pessoa fica sonolenta de dia. Às vezes acorda com dor de cabeça ou não consegue se concentrar. Pausas “em silêncio” aumentam a suspeita, mas não fecham o diagnóstico.
Eu examino nariz e garganta porque muita gente mistura componente obstrutivo com central. Se o quadro é predominantemente central, eu divido o cuidado com medicina do sono e com neurologia, e, conforme o caso, com pneumologia ou cardiologia.
A polissonografia é o que diferencia de verdade. Se na pausa não há esforço, o evento é central. Se há esforço contra a via fechada, é obstrutivo. O IAH sozinho não basta: o tipo de evento importa.
Conduta
A conduta acompanha a causa que a gente encontrou. Se o coração está descompensado, o centro de gravidade é a cardiologia. Se o gatilho é opioide, a revisão com o prescritor vem antes de qualquer aparelho novo. Quando a via aérea também está estreita — quadro misto —, aí entra o tratamento da anatomia, clínico ou cirúrgico. Não para operar a apneia central: para tratar o que for obstrutivo de verdade.
O CPAP às vezes entra, mas não é automático como na AOS. Em alguns casos faz sentido BiPAP ou ASV. ASV fica fora se houver insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida e apneia central predominante [2]. Essa decisão fica com cardiologia e medicina do sono.
Referências
- Prevalence and Characteristics of Central Compared to Obstructive Sleep Apnea: Analyses from the Sleep Heart Health Study Cohort. L. M. Donovan, V. K. Kapur. Sleep. PMID: 27166235
- Adaptive Servo-Ventilation for Central Sleep Apnea in Systolic Heart Failure (SERVE-HF). M. R. Cowie et al.. N Engl J Med. PMID: 26039522
Próximo passo
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