Apneia do Sono e Ronco

Médico especialista em ronco: quando é hora de procurar um otorrinolaringologista?

Médico especialista em ronco: quando é hora de procurar um otorrinolaringologista?

Muitos pacientes chegam ao meu consultório cansados — literal e emocionalmente. A queixa do ronco raramente vem sozinha. Ela costuma vir acompanhada de relatos de noites fragmentadas, um parceiro que precisa dormir em outro quarto e aquela frustração silenciosa de acordar de manhã sentindo que o corpo trabalhou a noite inteira in vez de descansar. No desespero por uma noite inteira de sono, é comum as pessoas recorrerem a sprays nasais ou receitas milagrosas da internet que oferecem apenas um alívio paliativo e temporário. Escrevi este artigo para explicar, de forma direta, o que acontece no seu corpo enquanto você ronca e quando esse barulho deixa de ser um mero incômodo para se tornar um sinal de alerta de que algo não vai bem na sua saúde.

O que é o ronco e por que ele acontece?

Para entender o ronco, pense na sua via aérea superior como uma passagem de ar. Quando dormimos, toda a musculatura do corpo relaxa — incluindo a da garganta e da boca. Esse relaxamento faz com que o espaço para o ar passar fique estreito. Ao tentar passar por esse canal apertado com a mesma força, o ar gera uma turbulência que faz os tecidos moles da garganta (como o palato mole, a úvula e as amígdalas) vibrarem. Essa vibração é o barulho que chamamos de ronco.

Essa resistência à passagem do ar pode acontecer em diferentes níveis. No nariz, por exemplo, problemas comuns como o desvio de septo ou a hipertrofia dos cornetos nasais — que são os ‘filtros e aquecedores’ naturais do nariz — reduzem o espaço respiratório. Se o nariz está entupido, você é forçado a respirar pela boca. Isso muda a posição da língua e da mandíbula, estreitando ainda mais a garganta e facilitando o ronco. Outros fatores anatômicos, como amígdalas grandes, queixo um pouco para trás (retrognatismo) ou acúmulo de gordura na região do pescoço, também reduzem esse espaço.

Ronco é sempre um problema? Quando devo me preocupar?

Nem todo ronco é sinônimo de doença grave, mas nenhum ronco deve ser considerado normal. Há o ronco simples, que incomoda quem dorme ao lado, mas não interrompe o fluxo de oxigênio do próprio paciente. No entanto, o ronco alto, frequente e interrompido por engasgos costuma ser o principal sintoma da Apneia Obstrutiva do Sono.

Na apneia, a garganta fecha de tal forma durante o sono que a passagem do ar é totalmente bloqueada por alguns segundos. O cérebro, ao perceber a falta de oxigênio, envia um sinal de alerta para o corpo despertar ligeiramente e retomar a respiração. Esses microdespertares acontecem dezenas ou até centenas de vezes por noite. O paciente raramente se lembra deles, mas o resultado no dia seguinte é devastador: cansaço crônico, sonolência incontrolável ao longo do dia, irritabilidade, dor de cabeça ao acordar e dificuldade de concentração.

A escala do problema é enorme. Um amplo estudo epidemiológico publicado na revista Sleep Medicine [1] indicou que o ronco habitual afeta cerca de 41,5% dos homens e 28% das mulheres na população geral. Já a apneia do sono é uma epidemia silenciosa: um estudo global publicado na prestigiada revista The Lancet Respiratory Medicine [2] estimou que a apneia do sono afeta quase 1 bilhão de pessoas no mundo inteiro, com a prevalência de quadros moderados a graves atingindo até 38% da população adulta em algumas regiões. Isso mostra que o ronco frequente não é apenas uma questão de barulho ou de ‘dormir pesado’, mas um fator que sobrecarrega o coração e eleva o risco de infarto, derrame (AVC) e hipertensão crônica.

Como o otorrino avalia e diagnostica o ronco?

No consultório, meu primeiro passo é conversar longamente com o paciente — e, se possível, com seu parceiro ou parceira, que costuma trazer informações valiosas sobre o comportamento do sono. Eu preciso entender a frequência do ronco, se existem engasgos presenciados e qual o impacto disso na rotina diurna.

A seguir, realizo um exame físico otorrinolaringológico focado. Avalio primeiro o nariz, vendo como está o espaço interno para o ar passar. Verifico a presença de desvio de septo e o tamanho dos cornetos nasais. Depois, examino a garganta, observando o espaço atrás da língua, o tamanho das amígdalas e o palato. Se necessário, realizo o exame de nasofibroscopia, que consiste na introdução de uma fibra óptica muito fina e flexível pelo nariz para visualizar, em tempo real e de forma nítida, toda a anatomia interna da via aérea, permitindo identificar com precisão os locais de obstrução.

Para fechar o diagnóstico de forma precisa, o exame fundamental é a polissonografia. Ela monitora o seu sono durante uma noite inteira, seja em um laboratório do sono ou por meio de dispositivos portáteis que o paciente leva para casa. A polissonografia registra as ondas cerebrais, os níveis de oxigênio no sangue, a frequência cardíaca, o esforço respiratório e o número exato de paradas respiratórias (apneias) por hora de sono. Esse exame me diz se o paciente tem apenas um ronco simples ou se está sofrendo de apneia, além de classificar a gravidade do quadro.

Opções de tratamento para o ronco e apneia do sono

O tratamento é sempre personalizado e depende diretamente da gravidade e da causa anatômica da obstrução. Não existe uma fórmula única que sirva para todos os pacientes.

Para casos de ronco simples ou apneia muito leve, ajustes no estilo de vida podem trazer excelente resultado. Isso inclui a perda de peso, a prática de atividades físicas, evitar bebidas alcoólicas próximo ao horário de dormir e adotar o hábito de dormir de lado. Para alguns pacientes, aparelhos intraorais confeccionados por dentistas especializados em medicina do sono ajudam a projetar a mandíbula levemente para a frente, abrindo espaço na garganta.

Nos casos de apneia moderada a grave, o padrão-ouro de tratamento conservador é o CPAP (dispositivo de pressão positiva contínua nas vias aéreas). É um pequeno aparelho que envia um fluxo de ar suave através de uma máscara nasal, impedindo que os tecidos da garganta colapsem durante a noite. Embora a ideia de dormir com uma máscara gere receio inicial, as tecnologias modernas são extremamente silenciosas e confortáveis, transformando radicalmente o sono de quem os utiliza.

Quando identificamos alterações anatômicas claras, a cirurgia nasal é um tratamento excelente para o ronco primário e para quadros de apneia do sono leve. Procedimentos como a correção do desvio de septo e a redução cirúrgica dos cornetos nasais (turbinoplastia) restabelecem a passagem livre do ar pelo nariz, o que muitas vezes é o suficiente para resolver o barulho do ronco e os despertares na apneia leve. Para casos moderados a graves, embora a cirurgia nasal isolada possa não ser a cura definitiva da apneia por si só, ela desempenha um papel indispensável: ao desobstruir o nariz, ela facilita imensamente o uso e a adaptação ao CPAP, além de melhorar a qualidade do sono subjetiva do paciente. Em outras situações, cirurgias na garganta, como a remoção de amígdalas aumentadas ou procedimentos no palato mole, ajudam a ampliar o espaço da via aérea superior.

Referências

  1. Snoring and breathing pauses during sleep: interview survey of a United Kingdom population sample.. Lechner M, Breeze CE, Ohayon MM, Kotecha B.. Sleep Med. PMID: 30597439
  2. Estimation of the global prevalence and burden of obstructive sleep apnoea: a literature-based analysis.. Benjafield AV, Ayas NT, Eastwood PR, Heinzer R, Ip MSM, Morrell MJ, Nunez CM, Patel SR, Penzel T, Pépin JL, Peppard PE, Sinha S, Tufik S, Valentine K, Malhotra A.. Lancet Respir Med. PMID: 31300334

Próximo passo

Quer saber se a cirurgia é indicada para você?

Uma avaliação com Dr. Henrique é o jeito mais direto de entender o seu caso e as opções disponíveis.