Muitas vezes o paciente chega no consultório e diz: “Doutor, de dia até que respiro bem, mas quando eu deito pra dormir o nariz tampa.” Essa é uma história que eu escuto bastante, e muitas vezes a causa desses sintomas não é o que você pensa.
Ciclo nasal
Existe algo no nariz que é fisiológico e que a gente chama de ciclo nasal. O nariz, naturalmente, costuma ter um lado mais fechado e outro mais aberto — ele vai alternando o lado que funciona melhor.
A analogia que eu gosto de fazer é a de uma rodovia com duas pistas: uma está em manutenção, arrumando o asfalto, enquanto a outra circula. Eventualmente o nariz alterna, e a outra via fica em manutenção pra circulação continuar. Não tem nada errado com esse processo. É natural e fisiológico.
O problema é quando acontece essa alternância e mesmo assim você tem obstrução — atrapalha pra dormir ou pra respirar durante o dia. Isso é sinal de que tem alguma coisa a mais acontecendo.
Rinite
A rinite pode ser outra causa desse sintoma. Só que rinite não é sinônimo de alergia.
Ela pode ser alérgica — ácaro do colchão, travesseiro, cortina, tapete, pó, pelo de animal. Essa alergia pode piorar quando você deita na cama, sinal de que tem alguma coisa errada no ambiente do quarto ou do local onde você vive.
Ou pode ser não alérgica: temperatura, ar seco, cheiro forte, irritante.
Qual das duas é, a gente costuma entender no consultório com uma boa história — e, às vezes, pedindo exames laboratoriais.
Desvio de septo e cornetos
Outra causa é anatômica: desvio de septo ou corneto aumentado.
A analogia que eu gosto: o nariz é como dois corredores em paralelo. O septo nasal é a parede que divide esses dois corredores. Quando existe desvio, essa parede deixa um corredor mais estreito e o outro mais largo.
Mas o nariz nunca deixa espaço vazio. As “carninhas” do nariz — o que muita gente chama de carne esponjosa, e no termo técnico são os cornetos nasais inferiores — hipertrofiam, ou seja, crescem, ocupam o espaço e podem dificultar a passagem do ar.
Gotinhas descongestionantes
No Brasil a gente tem essas gotinhas — Neosoro, Afrin, Aturgyl, Naridrin e afins — que dá pra comprar sem receita. Elas abrem o nariz muito rápido porque contraem os vasos da mucosa.
O risco de viciar é grande. Usadas por tempo demais, causam efeito rebote: quando o efeito passa, o nariz fecha ainda mais, e vira hábito. É preciso ter muito cuidado com esse uso.
No consultório
Na consulta é onde a gente vai entender o que está acontecendo no seu nariz. A história é muito importante. O exame físico também — do nariz e da garganta. Às vezes, endoscopia nasal: uma câmera fininha que entra no nariz e olha as estruturas lá dentro.
Muitas vezes também importa avaliar a qualidade do sono e o impacto que o nariz tem nele.
Tratamento
O tratamento pode ser clínico: lavagem nasal, sprays nasais e outras medicações, conforme o caso.
Eventualmente, cirurgia — e aí depende do transtorno anatômico: cirurgia do desvio de septo, redução dos cornetos, e em alguns casos cirurgia relacionada à sinusite. O caminho se define depois de entender o que está por trás do sintoma.
Próximo passo
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